Você sabe como receber os frutos do sacrifício de Cristo no calvário? Na realidade, o sacrifício da Missa é substancialmente o mesmo que se deu na Cruz, então essa questão se resume a como participarmos bem da Santa Missa.
O sacerdócio de Cristo começou com Sua encarnação. O próprio ato de fazer-se homem constituiu Jesus sacerdote porque, pela união hipostática, Ele tornou-se “pontífice”, intermediário entre as duas naturezas: a humana e a divina. E, desde que veio ao mundo, Jesus começou a sua oblação interior, oferecendo a Deus adoração, ação de graças, súplica e reparação perfeitas.
Já na carpintaria de Nazaré Ele se entregava ao Pai com amor e generosidade infinitas. Porém, tecnicamente, aquilo ainda não era sacrifício, já que este exige uma vítima externa, passiva e capaz de expressar exteriormente a oblação interna e ativa que se passa no coração do sacerdote.
No Antigo Testamento, matavam-se animais com esta finalidade: que o culto externo indicasse uma entrega interior. No entanto, essa correspondência não existia mais; como os profetas já advertiam, o povo de Israel honrava a Deus não mais com o coração e de verdade, mas apenas com os lábios. Vem, então, ao mundo o coração amoroso de Cristo profetizado pelos antigos, a fim de oferecer não mais animais, mas a Si mesmo.
Aproveitando a ocasião do crime terrível que os algozes perpetraram contra Ele, Jesus dá-Se em sacrifício. Diante dos carrascos que o matam, Ele “nada faz”: sofre o crime passivamente, oferecendo-se ativamente pela redenção do mundo. Deus que é, Ele poderia muito bem impedir que tudo aquilo acontecesse com Ele. Mas, por amor, Ele doa-Se. Na Cruz, acontece o sacrifício que supera todos os sacrifícios da Velha Lei, pois, enquanto as vítimas antigas eram apenas sinais prefigurativos do que deveria vir, Cristo é a vítima e o próprio sacerdote que faz a oblação.
Tudo isso já teria sido grandioso, mas Deus quer que também nós participemos disso. Quando São Paulo afirma que completa em sua carne aquilo que falta aos sofrimentos de Cristo [1], não está querendo dizer que o perfeito sacrifício de Cristo seja, de algum modo, insuficiente. Quer dizer, ao invés, que, após a sua doação no Calvário, é necessário que recebamos os frutos de Sua redenção.
Isso é feito através da instituição dos sacramentos. A economia sacramental é o modo que Deus encontrou para distribuir os frutos da redenção em nossa vida. Por isso, todos os sacramentos estão ligados de alguma forma à Cruz de Cristo. O Batismo e a Eucaristia, por exemplo, estão prefigurados no sangue e na água que jorraram do lado aberto de Jesus [2].
Ao instituir a Santa Missa, Deus quis que ela fosse substancialmente a mesma coisa que foi o Seu sacrifício no madeiro da Cruz [3], sendo diverso, porém, o modo como são oferecidos. É o que afirma o Concílio de Trento: “Uma e mesma é a vítima: e aquele que agora oferece pelo ministério dos sacerdotes é o mesmo que, outrora, se ofereceu na Cruz, divergindo apenas o modo de oferecer” [4]. E é o que explica, com clareza, o Papa Pio XII, na encíclica Mediator Dei:
“Na cruz, com efeito, ele se ofereceu todo a Deus com os seus sofrimentos, e a imolação da vítima foi realizada por meio de morte cruenta livremente sofrida; no altar, ao invés, por causa do estado glorioso de sua natureza humana, ‘a morte não tem mais domínio sobre ele’ (Rm 6, 9) e, por conseguinte, não é possível a efusão do sangue; mas a divina sabedoria encontrou o modo admirável de tornar manifesto o sacrifício de nosso Redentor com sinais exteriores que são símbolos de morte. Já que, por meio da transubstanciação do pão no corpo e do vinho no sangue de Cristo, têm-se realmente presentes o seu corpo e o seu sangue; as espécies eucarísticas, sob as quais está presente, simbolizam a cruenta separação do corpo e do sangue. Assim o memorial da sua morte real sobre o Calvário repete-se sempre no sacrifício do altar, porque, por meio de símbolos distintos, se significa e demonstra que Jesus Cristo se encontra em estado de vítima” [5].
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